
Tudo começou em 2009, a propósito de um desafio para desenvolver uma peça sobre um neurónio, que resultou num trabalho que integrou a exposição Exuberâncias da Caixa Preta, comemorativa do aniversário e da publicação do livro "A Expressão das Emoções nos Homens e nos Animais", de Charles Darwin. Surgiu aí o interesse pela exploração e estudo das expressões faciais, percurso que se acentuou em 2010, com a série sistematizada de relevos em madeira com expressão de humanos e símios designada Uma Janela para Darwin, que foram agrupados e compostos num tríptico apresentado ao público em 2012.
Paralelamente, Carlos Marques, escultor, professor e um dos fundadores da ESAD Matosinhos, desenvolvia também a memória das expressões mas, neste caso, de expressões plásticas que, de uma forma ou de outra, se tinham tornando referência para a escultura que sempre o interessou. Assim, a sistematização e a construção modular em André; a colagem e abstração biomórfica em Arp; a atitude auto-suficiente, a insistência no talhe direto e a procura depurada de Brancusi; o conceptualismo e o ready made de Duchamp; a imponderabilidade de Calder; os cabos, as amarras e a atitude interventiva de Christo; a conquista linear do espaço em Giacometti, a ortogonalidade de Lewit; a eleição do percurso e a instalação em Long; a abstração da figura em Moore; a subversão da escala em Oldemburg; a expressão do modelado e a parte pelo todo de Rodin; a assunção da fractura em Ruckriem ou a abertura ao espaço e a intervenção na paisagem em Shmitson, foram elementos fundamentais para a abordagem apresentada no conjunto de peças subordinadas ao tema Relicários, exposição que vai ser também reposta no Porto, em Março de 2014, no Palacete dos Viscondes de Balsemão.
Recuperando os retratos de escultores envolvidos como memória nestes relicários, foram acrescentados mais alguns, também eleitos na esteira deste processo de homenagem. A confrontação com olhares de personagens que se constituem pelo seu conjunto num único olhar, apresenta-se como uma espécie de exorcismo que se cumpre e me tem acompanhado, explica Carlos Marques. Apesar de tratados individualmente, os desenhos assumem-se, como módulos de um conjunto, fazendo todos parte de um mesmo corpo. Expostos de forma tradicional, os retratos apresentados fazem sentido através do conjunto, e é essa expressão global que se pretende que esteja exposta nesta espécie de instalação.
Assim como a imagem de Che, que Jim de Fitzpatrick criou em 1968 a partir da fotografia de Alberto Korda, depois de multiplicada se transformou num ícone mundial, a imagem de cada escultor referenciado exprime a condição de um ícone privado e o tratamento registado na tela acentua essa intenção, acrescenta o escultor.
Carlos Marques é formado em Escultura pela Faculdade de Belas Artes do Porto, onde foi professor durante vários anos. Apresentou o seu trabalho em quase duzentas exposições colectivas e individuais, nacionais e internacionais, sendo uma das participações mais recentes a apresentação das peças Uma Janela para Darwin e Espaço de Ensaio para Testar Impulsos Vários, no âmbito da exposição Exuberâncias da Caixa Preta/comemorações dos 200 anos de Charles Darwin, no Museu Nacional de Soares dos Reis. A sua obra foi premiada e faz parte de várias coleções públicas (câmaras municipais de S. João da Madeira, Porto, Matosinhos, Maia, Famalicão, entre muitas outras), privadas (Bienal de Cerveira, Fundação Couto, Colégio Liverpool, Diamond Board, entre outras), ou museus (British Museum em Londres, Museu de Amadeu de Sousa Cardoso em Amarante, Museu de Arte Contemporânea de Serralves no Porto ou Casa Museu Teixeira Lopes em Vila Nova de Gaia).
A exposição inaugura a 18 de Janeiro no Lugar do Desenho da Fundação Júlio Resende e fica até 16 de Março.