Educação das Pedras
Os fazedores de luz
Apresentação A. Nínimo
Desenhos Nuno Fisteus
Textos Valter Hugo Mãe
Reuniam pequenos amontoados de luz de que só se desfaziam após lingas jornadas interiores. Estraíam-nos dos mais improváveis objectos incandescentes que circulam escondidos na noite e, após sugarem o seu interior, devilviam-nos à procedência na esperança de contemplarem algo mais do que as trevas.
…
Era tarefa condenada à partida, sabiam-no bem: a cegueira acompanhá-los-ia pela vida fora, tão certa como os pequenos exercícios diários de limpeza da alma a que se entregam. De dedo em riste e com pose altiva, exigiam aos deuses secretos a sua rendição magnânime. E o silêncio que se seguia, sempre mais intenso do que o dia anterior, apenas comprovava o medo infundido às frágeis criaturas divinas. Sim, a perdição absoluta que tanto rogavam estava a caminho de se tornar real. Perfilados a um canto, anónimos, compraziam-se então em apontar as fraquezas dos outros, acusando-se mutuamente de falta de visão. Chegavam a tão definitiva sentença ao tactearem o rosto dos companheiros de infortúnio, embrulhado num sorriso imenso, só passível de existir em quem fora até aí poupado à exposição absoluta a todos os males do mundo.
Valter Hugo Mãe
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